Dorli Kamkhagi
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Artigo · SESC, 8 de março de 2019

Os limites e as possibilidades do home office

Felicidade x solidão

Dorli Kamkhagi

Cada vez mais, graças ao avanço tecnológico, a utilização de técnicas de trabalho a distância, também denominado por tecnologias de informação e comunicação, se faz presente como possibilidade nas organizações de trabalho. Conhecido por Home Office ou tele trabalho a atividade profissional desenvolvida em casa apresenta pontos positivos e negativos.¹

Podemos pensar nesta nova possibilidade que a pós-modernidade acaba por nos propiciar como mais um facilitador na relação entre o homem e seu trabalho. É interessante poder pensar em algo que há 15 anos parecia impossível: alguém desenvolver um trabalho, pertencer a uma empresa e não ter uma relação presencial e diária num determinado local indicado por essa organização.

Outrora, alguns privilegiados boêmios, artistas, escritores, desenvolviam sua arte (trabalho) noite adentro, em geral em casa, num estúdio. Isso dava certa áurea de glamour e de idealização de um trabalho com requintes ao mesmo tempo estar em casa e poder se dedicar a outros afazeres e também usufruir da presença de filhos, animais ou de outras atividades.

Para as empresas tal forma de trabalho pode resultar em economia imediata com alguns gastos como transportes e alimentação. Porém a facilidade encontrada por um sujeito pode não ter a mesma plasticidade e compromisso com a empresa revelada por outro. Podendo estar presencialmente atentos e disponibilizando de diferentes cargas e turnos horários.

O trabalho do espaço corporativo exige grande disciplina e criar novos e diferentes hábitos e separações entre a moradia e o espaço de trabalho é uma condição necessária para bons resultados. Assim tornar-se-á ao mesmo tempo um espaço de trabalho e o lar desta pessoa o que significa um espaço de ampliação da privacidade e das necessidades pessoais.

Muitas vezes o trabalhador tem dificuldade em se desconectar das atividades de trabalho; julgando-se importante que seja feito uma boa avaliação do perfil dos funcionários das empresas para encontrar aquele que mais se adéqua às demandas e consegue flexibilidade para lidar com as dificuldades desta atividade.

É importante notar que estas delimitações se fazem presentes para que o colaborador que fez tal opção possa, realmente, se sentir num ambiente de trabalho, ou melhor, ter em mente o valor desta postura de trabalho e de disposição de enfrentar outro tipo de jornada.

Uma jornada que se faz por meio uma disponibilidade emocional. Um desafio e, sobretudo, saber que vai ter que lidar com um isolamento e uma solidão que o trabalho dentro de uma empresa de alguma forma não deixa transparecer este sentimento de isolamento ao menos tão aparente.

Estar em contato com amigos, sair para almoços, ter discussões em grupos ou simplesmente um pequeno café para uma pequena troca afetiva ou de desabafos pode ser um fator importante apresentando a sensação de pertencimento.

Muitas pessoas que trabalham em casa relatam as facilidades de, por exemplo, não enfrentarem o intenso trânsito da cidade; da possibilidade ir à empresa com menor frequência; entregando tarefas por malotes e realizando vídeo conferências. Mesmo assim existe uma diferença sutil entre nos sentirmos trabalhando, isto é, desenvolvermos algo, e fazermos parte da criação de um projeto. Sabemos que a presença dos outros nos estimula e nos ajuda no nosso desenvolvimento psíquico-emocional. Sermos olhados e escolhidos em nosso ambiente de trabalho; tem uma importância vital em nossa vida organizacional. Sermos reconhecidos por nossos familiares por nossos pares e, sobretudo, por nós mesmos de que estamos dentro de um lugar de uma estrutura na qual temos responsabilidades e comprometimentos. Seja a distância ou no dia a dia da empresa.

O psicanalista D.W.Winnicott (1971) ao considerar a importância do ambiente na formação psíquica e emocional do bebê contribui com a ideia da necessidade de se constituir para o outro como fundamental.

Para algumas pessoas é possível este trabalho a distância, pois se sentem bem interiorizados com sua vida pessoal, e com sua provisão nutricional de afetos e relacionamentos. Outras, no entanto, podem ter aparentemente certa liberdade nesta nova forma de trabalho, o que não corresponde com o processo que se desenvolve nesta relação de emprego e trabalho.

Sobre esta nova possibilidade que o Home Office nos possibilita, Biesdorf (2011) aponta sobre uma nova forma ou substituição parcial ou total do contato pessoal do empregador e colegas de trabalho, dando lugar a um funcionário virtual, que estará presente em alguns momentos. Todavia o sentimento de pertencer, e se sentir integrado são fundamentais ao desenvolvimento humano.

As pessoas muitas vezes necessitam de um olhar que reforce o seu existir, a sua marca no trabalho, e naquilo que ela se propõem a fazer.

Este olhar é algo que nos válida desde a nossa infância, quando necessitamos que nossos pais nos aplaudam ou mostrem o quanto somos capazes de realizar uma atividade elementar. Enfim, os jogos lúdicos infantis serão mais tarde substituídos também pela capacidade de nos relacionarmos em grupos nas empresas; sermos tolerantes às críticas e as dificuldades nas relações competitivas que se estabelecem nas organizações. Principalmente no mundo corporativo e empresarial no qual os egos tendem a ter um papel preponderante, facilitando relações de poder e medo.

Embora existam muitas oportunidades no dia a dia de se trabalhar em casa, pode haver um sentimento de isolamento muitas vezes acompanhado de quadros depressivos. O homem sempre foi um ser gregário e o estar junto, o fazer parte é algo que estimula muito os vínculos afetivos assim como desenvolvemos novas habilidades na convivência.

O Quanto é possível que ocorra um adoecimento lento e silencioso quando nos encontramos muito afastados de um grupo no qual depositamos muito de nossa identidade e reconhecimento.

A reinvenção de uma nova forma de trabalhar

Pudemos observar que algumas pessoas que tiveram os seus trabalhos formais perdidos viram nesta oportunidade uma nova forma de repensar o que fazer e como fazer: o Home Office. Para muitos foi uma solução a priori alternativa e pouco a pouco uma maneira de driblar a angústia de um tempo aparentemente vazio e ocioso e ter uma fonte de renda.

Há relatos de pacientes que nos contam sobre o estranhamento do ‘não sair de casa’. O tempo que era redimensionado de outra forma; se faz necessária uma dose de coragem; de dinamismo e, sobretudo, crença de que existe um trabalho que pode ser feito com dedicação e entusiasmo sem que não se tenha necessariamente um diretor a quem se reportar constantemente. Isso pode funcionar muito bem para pessoas que já tenham desenvolvidos outras funções, e não necessitem constantemente de se sentirem fazendo integralmente parte. Mas em algumas fases da vida torna-se fundamental está “rotina” e preparo de dormir deixar a roupa pronta e se aprontar para mais um dia de ver pessoas, desenvolver uma função e se sentir parte de um contexto social, econômico e dinâmico.

Com o aumento da longevidade houve também esta retomada e uma nova perspectiva de que existe vida após aposentadoria, a reinvenção se faz presente.

Talvez seja esta discussão importante sobre a validade do Home Office? E bom estarmos conectados com as pessoas; com projetos e sem dúvida com um trabalho que nos permita administrar nosso tempo; algumas escolhas e se possível deixarmos um espaço para ver o por do Sol. Podermos amar e apreciar as pequenas /grandes coisas que a vida nos oferece; porém é necessário fazer o movimento de vida. Movimento que nos permite nos transformar e adequar àquilo que é melhor no momento presente.

E também precisa aceitar este novo mundo no qual trocas são feitas, e sobretudo as oportunidades nos possibilitam a ver novas nuances de uma outra realidade.

Nota

¹ A terminologia Home Office apresenta diferentes sinônimos que vão além de trabalhar em casa: escritório em casa; trabalho á distancia; trabalho portátil e outros. A terminologia Tele significa distancia, e é o fator determinante para que este trabalho ocorra. Sua metodologia tem como objetivo facilitar as possibilidades de trabalho á distancia com uma descentralização do trabalho.

Referências

  • CAPPELLI, P. The new dealat work. Boston: Harvard Business School Press, 1999.
  • GARRETT, R. K.; DANZIGER, J.N. Which telework? Social Science Computer Review, v.25, n.1, p.27-47, 2007
  • FOENKINOS, David. Em caso de felicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.
  • KUMAR, K. Da sociedade pós-industrial à pós-moderna. Novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: JZE, 1997.
  • WINNICOTT D.W. Plaving and Reality. London: Tavistock Publications Ltd, 1971.
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