Dorli Kamkhagi
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Ensaio

E o mundo ficou em suspensão

Dorli Kamkhagi

A minha história de vida foi marcada por vivências relatadas por meus pais de grandes catástrofes. A guerra, o holocausto as grandes perdas humanas, sobretudo a tentativa de criar uma nova vida em um continente ou melhor um mundo novo.

Este sempre foi o meu imaginário infantil que vivia passado por medos inseguranças que eu nem sabia de qual lugar elas vinham, mas dentro do meu mundo infantil (embora me sentisse muito protegida e amada por meus pais), parecia que sempre tive algo que eu não me encaixava.

Anos mais tarde já psicanalista e tendo um certo percurso de vida, como mulher, mãe e passado por grandes desafios; comecei a entender o quanto aquilo que nossos pais viveram e os segredos que não foram ditos, e que acabam por se tornar “interditos” em toda uma atuação intra (psíquica). São muitas vezes ligados que nos foram transmitido de vivências dolorosas e que necessita de um lugar no nosso mundo psíquico para podemos seguir em forte mesmo que a sensação de muitas vezes fazermos partes de um mundo que ainda está saturado.

Desta forma, eu pude me construir com terapeutas e ter neste oficio meu porto seguro que me permitir acolher a dor de meus pacientes e poder “ter nesta escuta “um lugar que poderia transformar e que me permitia ter reflexões e estudos que ancorassem minhas praticas.

Do meu desenvolvimento com analista, ao mesmo tempo que o tempo passava pude me transformar em mãe / avó, e viver diferentes papeis com diferentes colorações, embora restos de medos e angustias infantis iam encontrando novos lugares.

É importante e eu poder me situar e contar a vocês leitores, como o meu mundo, não tão estressado, estava constituído no momento em que pudemos nos dar conta de que algo havia mudado.

No final de fevereiro fiz uma viagem para Miami e era uma das poucas pessoas a usar máscara e passar álcool gel nas cadeiras, me senti muito estranha. Porém o estranhamento maior foi a sensação de ver esta cidade tão solar, tão esvaziada. Bem e culpar o dólar alto, talvez o carnaval, os turistas foram para outros lugares.

Todas as explicações racionais me faziam sentir mais forte e a sensação de um esvaziamento e de que “algo” estava de quem sabe seria mais um delírio meu ou minha mania de achar que as coisas estavam ruins. Embora o papel de Polyana sempre me caísse bem era assim que muitas vezes eu tentava quando pequena não sentir tanta dor, pois algumas percepções não dolorosas.

Enfim, após chegar ao brasil e ficar super ocupada (eu ainda não havia associado a Cóvid 19), comecei a perceber que algo no mundo estava se transformando em um grande pesadelo a decisão de não fazermos mais atendimentos presenciais em nosso trabalho Institucional no IPQ, e criamos um grupo que pudesse atender on line pacientes acima de 60 anos com depressão; foi um momento que nos deu uma sensação de potência de fazer algo importante enquanto a ordem externa era; fique em casa.

Era um mandamento de vida, mais podia significar morrer, e encontrar um inimigo mortal.

Quando contei um pouco sobre as minhas origens eu percebo ter recebido uma dose bastante grande do que entendemos de intento de sobrevivência, tentar lutar contra a pulsão destrutiva de um inimigo.

Era uma guerra? Qual guerra ?

Quem eram os nossos inimigos, as dentro de mim eram sensações muitas vezes controladoras com os temores de meus pacientes este medo de que podemos morrer.

“O meu maior medo era de não ficar paralisada”. Estas paradas podia significar eu me perder de mim, mas fazendo o que eu sabia da importante deste movimento de vida e morte.

E como psicanalista eu sentia aumentado conforme o número de mortes, era uma sensação de ampliar que eu tentava, mais uma vez tentando acolher a dor do outro, ao mesmo tempo que eu também cuidava do muito cansaço assistida.

Sobre o nosso trabalho no IPQdaFMUSP é importante relatar o nosso funcionamento como parte de uma equipe o Lim 27 que atua na psiquiatria e tem como papel principal entender e tratar do envelhecimento físico, e psico social; assim como de todas as perdas e comprometimentos cognitivos que levam a doença degenerativas, sobretudo Alzheimer (e outros).

Este grupo intenso funciona sob a coordenação do nosso diretor Prof. Orestes dá um cuidado especial a todos os grupos que comprometem o Lim27.

Dentro destes grupos está o nosso grupo de psicoterapia do amadurecimento coordenado por mim e pela Dra. Ana Carolina Costa (e no momento mais 8 integrantes). Temos vários projetos em andamento; tais como: grupos para idosos com depressão (acima de 60 anos), grupos para familiares de cuidadores de pacientes com Alzheimer , grupos para homoxessuais com depressão acima de 60 anos. E mais recentemente fizemos 2 grupos com cuidadores de familiares com síndrome de Dow e Alzheimer

Todo este trabalho envolve uma logística bem articulada, assim como uma equipe muito afinada e responsável, que possa lidar com as dificuldades emocionais dos nossos pacientes e com as nossas dificuldades em não termos todas as respostas mais precisada mente no dia 16 de março quando nos demos conta de que algo muito forte estaria acontecendo, e que basicamente a nossa população de pacientes eram pessoas acima de 50/60 anos, resolvemos parar.

Entrar neste estado de frear um processo no primeiro momento despertou um enorme medo e angústia sentidas como um questionamento e agora?

Resolvemos nos dar uma pausa.

Talvez esta tenha sido a minha maior descoberta destes, “estranhos tempos”, é pausar, ou seja viver num lugar em suspensão. Eu que tenho sempre usava para meus pacientes a metáfora de que; uma porta se fechava e a outra não se abrira, dando a este não lugar, um momento de desperte cimento, eu que tinha sempre desde pequena sentindo um pouco desta aflição de não ter ao certo “qual o meu lugar”, quem eu sou!

Enfim este muito de legados que me constituírem e ao mesmo tempo me permitiram me sentir “no mens land”. Voltavam e parece não ter ainda um lugar.

Mas pouco a pouco as muitas conversas intensas (este dialogo consigo mesmo com meu sempre presente terapeuta) foram me ajudando a perceber que era possível fazer algo. E que eu me percebia sim com recursos emocionais, psíquicos, para poder formatar um outro gesto de atendermos nossos pacientes.

Mas devo confessar, que eu preciso cuidar e ser bastante cuidada, o que resultou mesma colcha de batalho do que eu ia percebendo de bom, e de acolhedor, eu havia tido com previsões ao longo desta minha jornada de 66 anos; pouco a pouco, embora sentindo ainda um acordar difícil, eu vencia o medo (e saia para andar, fazer gym com minha sempre presente personal Vanessa) e começava com a equipe a formatar o nosso trabalho.

Nunca a frase “carpe diem” foi tão forte! Eu via como a cada dia embora houvesse várias sensações eu me percebesse, eu atravessava o dia e ia voltando a atender os meus pacientes. Nem eu acreditava, acho que nem eles. Devo muito a todos, por terem permanecido neste trabalho e terem tido esta compreensão, trabalho, dor, minhas dificuldades ante esta nova vivencia e os desafios, mas a tela se abria e eu estava lá, e tinha alguém que me “escutava”.

Foram momentos muito difíceis por tudo, eu que sou quase avessa a atender online, fui percebendo que algo de mim estava lá. (O meu olhar, a minha voz, a minha escuta, o meu pensar psicanalítico). Era uma troca de afetos alguns suportes eram contribuídos, outros restituídos, e percebia que começava a brotar um botão de esperança.

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